Por Camila Pereira
Os animados estudantes na foto acima são raridade no Brasil. Aos 8 anos, perguntados sobre o que mais os diverte na escola, não hesitam: "Ciências, ciências!". Num país em que tantos alunos repudiam as disciplinas exatas, o apreço dessas crianças pela matéria surpreende. Chama ainda mais atenção saber que tanta euforia se deve a algo tão simples: um armário repleto de tubos de ensaio e reagentes químicos, novidade na sala de aula. Na ausência de um laboratório, é lá que fica guardado o material para os experimentos. O projeto propicia algo inédito na vida dessas crianças. Pela primeira vez, elas, que estudam em escola pública, recebem aulas práticas de ciências até melhores do que as de bons colégios particulares. Algumas ouviram falar da matéria só agora. Na semana passada, os alunos da Escola Classe 41, encravada numa região pobre do Distrito Federal, eram apresentados ao conceito de densidade dos líquidos por meio da observação de detergente, mel e água em tubos de ensaio. Esculpiam ainda órgãos do corpo humano com massinha de modelar. Os mais velhos descobriam a diversidade das plantas no microscópio. O projeto, concebido por uma empresa inglesa especializada em educação, já foi implantado em escolas públicas de Salvador e Belo Horizonte e, em breve, chegará a países como a Argentina. A diferença, no caso de Brasília, é a extensão: todos os 311 000 alunos do ensino fundamental foram incluídos.
Jung Yeon/AFP
No topo do ranking - ao contrário do que ocorre no Brasil, na Coréia do Sul laboratórios na escola são a regra.
Em nenhum outro lugar do país se importam hoje tantas idéias para a educação quanto no Distrito Federal. Elas despertam atenção por ser aplicadas ao mesmo tempo numa única rede de escolas. Além das aulas práticas de ciências, uma mudança crucial no sistema de escolha dos diretores pode pesar em favor do ensino. Eles passaram a ser selecionados por eleição direta – não mais por indicação política. Só podem entrar na disputa aqueles com boas notas numa prova oficial. Caso de Oldair José de Souza, diretor recém-empossado: "Nunca tive contatos no governo. Por indicação, jamais chegaria a diretor". Na posse, ele e os outros assinaram um contrato com a secretaria em que se comprometem a cumprir metas acadêmicas. Caso fracassem, ficam impedidos de se reeleger – bem-sucedidos, recebem como prêmio um bônus no salário, benefício estendido ao restante da equipe. Outro fator decisivo para o avanço na sala de aula diz respeito à jornada escolar. Como em países de ótimo ensino, o Distrito Federal resolveu implantar turno integral em todas as escolas públicas até 2010. Não é exatamente barato. Neste ano, os gastos com educação subiram 645 milhões de reais, em torno de 20%. A experiência mostra, no entanto, que as medidas vão ao ponto certo. "Investir em meritocracia e em mais aulas provou ser uma fórmula bastante eficiente", diz o especialista Claudio de Moura Castro.
