Evolução tecnológica bit a bit

Corria o ano de 1968, e um garoto de 13 anos, aluno da Lakeside School, em Seattle, Estados Unidos, divertia-se em criar seu primeiro programa para computadores – um acanhadíssimoA Estrada do Futuro.Os computadores pessoais, com teclado e monitor, só apareceram em 1977, a internet deixou de ser uma ferramenta de uso restrito a um punhado de iniciados nos anos 90. Foi também nesse momento que a telefonia celular se tornou um serviço de massas. jogo-da-velha. O nome do aluno é William Henry Gates III, que anos mais tarde seria conhecido apenas como Bill Gates, fundaria a Microsoft, se tornaria o homem mais rico do mundo e o mais generoso filantropo da história. O equipamento usado pelo jovem programador era o que havia de mais avançado em tecnologia doméstica: um console, sem tela, com capacidade de processamento que mal chegava a um décimo da de um relógio de pulso digital hoje. Os garotos digitavam as jogadas em um teclado semelhante ao de uma máquina de escrever. Depois, corriam para formar uma roda em torno de uma barulhenta impressora. Ali, aguardavam o resultado da operação, para saber quem era o vencedor ou qual seria o próximo lance. "Uma partida que demoraria trinta segundos se usássemos papel e lápis podia consumir todo o horário do almoço. Mas quem se importava?", lembra Gates, em seu livro.

Símbolos de uma era - Jobs, em 1981, ao lado do Apple II, e em janeiro, na MacWorld e Gates, em 1977, dois anos depois da fundação da Microsoft, preso por dirigir um Porsche 911 em alta velocidade, e em agosto, depois de deixar o comando da empresa.

O primeiro celular, o Motorola DynaTAC 8000X, foi lançado em 1983 e media 33 centímetros. Ao lado do iPhone, lembra uma borduna (na aparência e no uso).

Hoje, os computadores pessoais são dez vezes mais potentes que as máquinas usadas para conduzir o homem à Lua, em 1969. À esquerda, o IBM 360, típico dos anos 60, que ocupava uma sala, e o finíssimo MacBook Air (à dir.), com 1,9 centímetro de espessura.

5 perguntas para Steven Johnson

O americano Steven Johnson, autor de Surpreendente (Everything Bad Is Good for You, no título original em inglês), defende o acesso irrestrito dos jovens aos videogames e aos sites de relacionamento. Ele acredita que os jogos de computador, a internet e até mesmo a televisão possuem virtudes intelectuais e cognitivas diferentes, mas não inferiores às da leitura.

A tecnologia nos faz melhores

O ensaísta que criou a revista Wired tem uma reflexão original para esse tema central da vida moderna. Para ele, cada nova ferramenta só cumpre seu papel ao ampliar nossas possibilidades de escolha. Neste ensaio, que servirá de embrião para seu novo livro, What Technology Wants (O que Quer a Tecnologia), Kelly analisa o significado da tecnologia para a existência humana.

"Tecnologia é tudo aquilo que criamos: literatura, pintura, música, bibliotecas, as leis, e assim por diante. Os milhares de letras de um código de computador e os milhares de letras de uma obra de Shakespeare são ambos formas de tecnologia"

DNA para as massas

Dezenas de empresas já oferecem testes genéticos por preços a partir de 1 000 dólares. Eles deveriam prevenir doenças, mas, por enquanto, só têm despertado polêmicas.

Por Ruth Helena Bellinghini

Hoje, boa parte dos testes de DNA é um compêndio de curiosidades. Eles são o equivalente genético dos mapas astrais, populares nos anos 90. Os exames apontam, por exemplo, tendências à calvície, a acordar mais cedo ou a ter uma memória verbal relativamente fraca. Detectam ainda a sensibilidade a sabores amargos de uma substância conhecida como PTC, presente no café e na cerveja. Em alguns casos, revelam a intolerância ao álcool. Tal peculiaridade pode ser constatada a partir de alterações numa enzima chamada álcool-desidrogenase. Ela quebra a molécula do álcool, que é tóxica para o organismo. Quando não funciona bem, subprodutos da molécula permanecem no sangue e causam mal-estar. Os testes detalham ainda bobagens como o tipo de cera do ouvido de uma pessoa. Pode ser pegajosa ou seca. Uma ou outra não diz nada. Reflete somente a variabilidade do ser humano – assim como a cor dos olhos, verdes, castanhos ou azuis.

CÓDIGO DA VIDA - Uma seqüência de DNA humano representada na tela de um computador. Cada cor identifica uma das quatro bases nitrogenadas (conhecidas pelas letras A, C, G e T) que constituem o DNA. Os genes são séries de bases com funções específicas no organismo. Alterações nessas séries podem indicar propensão a doenças.

Em apenas 3 segundos

Nesse breve intervalo de tempo, um novo computador é vendido no Brasil. E quem mais se beneficia dessa avalanche de máquinas são as famílias de baixa renda e as pequenas empresas, que começam a desfrutar as vantagens do mundo digital.


Fábrica da Positivo, em Curitiba: a empresa apostou na classe C e lidera o mercado de PCs

A lenda chamada Moore

Se a tecnologia digital fosse uma orquestra, Gordon Moore seria Joseph Haydn, o austríaco do século XVIII que determinou a disposição dos instrumentos respeitada até os dias de hoje. Há mais de quarenta anos, Moore previu que a capacidade de processamento dos computadores dobraria, enquanto o preço das máquinas despencaria. Sua previsão virou lei e tem sido comprovada ano a ano.

Por Gabriela Carelli

Este é o manuscrito original da Lei de Moore, de 1965. As curvas mostram a tendência de queda dos preços, enquanto o número de componentes por circuito aumenta. Esse ciclo repete-se em espaços regulares de tempo.

"Fico desapontado em ver como sistemas ultramodernos de pesquisa são mal aproveitados na medicina. Essa é uma área que deveria se beneficiar mais da tecnologia digital"

Sob a batuta de Moore

A que ponto chegamos

Ele é uma lenda viva da era da informação. Gordon Moore, químico e físico americano, é o autor de um artigo publicado na revista Electronics, em 1965, que realizou uma façanha notável: anteviu, com razoável precisão, o ritmo da revolução tecnológica nas quatro décadas subseqüentes. O texto indicava que a capacidade de processamento do microprocessador – o chip – dobraria a cada ano. Esse avanço permitiria a criação de máquinas cada vez mais potentes e baratas. Em 1975, ele reviu o cálculo, ampliando o período para dois anos. A estimativa transformou-se num estatuto da informática, batizado de Lei de Moore. Mas ele fez mais. Co-fundador da Intel, produziu mais de uma dezena de modelos de chips. Sem essas pequenas peças, feitas de micropastilhas de silício e capazes de processar bilhões de informações por segundo, nem sequer existiriam as calculadoras portáteis. Aos 79 anos, a lenda dedica-se à Gordon and Betty Moore Foundation, uma entidade filantrópica criada em 2000. Figura em quinto lugar na lista dos cinqüenta maiores doadores da revista Business Week. "Os assuntos que me preocupam hoje são a conservação ambiental, minha família e a pescaria", diz. Mas o cientista não deixa de acompanhar a evolução da tecnologia e de fazer novas previsões. Quais? Com a palavra, Gordon Moore.

"Algum dia eu falarei em inglês e o computador reproduzirá meu pensamento em português. Essa é uma das inovações que eu mais gostaria de ver. Mudará a forma como interagimos com os PCs"

Em ritmo eletrizante

Entre o surgimento da linguagem e o da escrita, sucederam-se 1 400 gerações. Agora, no intervalo de vida de uma mesma geração, cerca de vinte anos, novos paradigmas tecnológicos são inventados e reinventados.

Por Ana Paula Baltazar

O sociólogo belga-canadense Derrick de Kerckhove define de maneira singular o atual momento em que se dá a evolução da tecnologia. "Vivemos em estado permanente de inovação, e não é possível detê-la", disse a VEJA. Discípulo do filósofo Marshall McLuhan (1911-1980), famoso por ter lançado o conceito de aldeia global, Kerckhove usa a figura ao lado para explicar seu raciocínio. A ilustração mostra que, entre a aquisição da linguagem humana e o surgimento da escrita, houve um intervalo de 1 400 gerações. Da escrita ao desenvolvimento da imprensa, esse prazo sofreu uma brutal redução: passaram-se 265 gerações. Já revoluções recentes, que disseminaram a televisão, o computador e a internet, ocorrem a intervalos de poucos anos. E todas têm sido vivenciadas por uma ou duas gerações. É um ritmo estonteante de novidades.

Passo acelerado

Kerckhove define que o meio é a base para esse salto da inovação. As sociedades orais eram mais conservadoras, porque tinham no corpo seu limite para a difusão da linguagem. Guardavam na memória tudo o que fosse necessário para o bom funcionamento do grupo. Com a escrita, o aprendizado tornou-se mais fácil. O homem pôde inovar usando os registros históricos. O surgimento da prensa trouxe um novo paradigma. Outra importante etapa na escalada de evolução tecnológica deu-se com a eletricidade. Como meio, ela passou a transportar a linguagem – pelo telégrafo, pelo rádio e pela televisão –, e ajudou a vencer qualquer distância. Depois, associou-se à digitalização. "Assim nasceram as condições para o atual estado de inovação permanente", diz Kerckhove, há 25 anos diretor do Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto. Olhando a imagem, ninguém duvida.

Direto para o HD

The New York Times

Caneta eletrônica

A Livescribe é uma caneta eletrônica que grava e digitaliza aulas, conferências e entrevistas enquanto o usuário toma nota em um caderno especial (foto). Ela grava o som da explanação ao mesmo tempo em que se escreve. Depois, para localizar um trecho específico do áudio, basta apontar a caneta para a anotação correspondente. Nos Estados Unidos, a versão com 1 GB de memória é vendida por 150 dólares. O modelo de 2 GB custa 200 dólares. O preço de quatro cadernos especiais, cada um com 100 páginas, é de 20 dólares. Outras canetas eletrônicas não requerem papéis especiais. É o caso da Mobile Digital Scribe (120 dólares) e da ZPen (100 dólares), da Dane-Elec. Mas elas não fazem gravações.

Quero ser digital ...

Para se livrar de montanhas de papel, o cientista Gordon Bell arquiva no disco rígido de um computador tudo o que ouve, diz, vê – ou sente. Ele é um dos precursores da era da digitalização total, em que todas as experiências de uma vida podem ser convertidas em bits.

Por Carlos Rydlewski e Lia Luz

PELO FIM DO SUFOCO - Gordon Beel, um dos pioneiros da era digital, foi descrito pela revista New Yorker como o Frank Lloyd Wright dos computadores, numa alusão ao genial arquiteto americano. Agora, quer ser digital.

Um HD na cabeça

A era digital atingiu uma nova e insólita fronteira. Hoje, todos os fatos ocorridos ao longo de uma vida podem ser transformados em bits e acomodados no disco rígido de um computador. Tal possibilidade amplia-se rapidamente com o surgimento de novos produtos e softwares que registram eletronicamente as ações, reações e emoções de uma pessoa. Abre-se, assim, o caminho para a digitalização total do dia-a-dia de um indivíduo. Uma das experiências em andamento que levam essa idéia ao extremo vem sendo feita por Gordon Bell, pesquisador da Microsoft Research. Ele serve de cobaia ao projeto MyLifeBits (Minha Vida em Bits). Bell digitaliza tudo o que faz. Acredita que esse tipo de acervo, uma espécie de memória sobressalente e acessível ao clique do mouse, pode auxiliar pessoas com Alzheimer. No laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor Deb Roy conduz uma empreitada semelhante, mas com objetivo diverso. À frente do Human Speechome Project (Projeto da Fala Humana em Casa), Roy gravou – quase na íntegra – os três primeiros anos de vida do seu filho. O pesquisador quer entender o processo de aquisição da linguagem por parte das crianças. Crê que seus estudos serão úteis para ensinar as máquinas a falar. As aplicações para as memórias digitais ainda estão sendo esboçadas.

"É maravilhoso ter todos os registros do meu filho ao longo de três anos. Muitas coisas aconteceram quando menos esperávamos. No futuro, haverá grande demanda por esse sistema de vídeo."- Deb Roy, diretor do grupo de máquinas cognitivas do MIT"

Por dentro da mente

Os computadores já conseguem processar dados com velocidade semelhante à usada pelo cérebro em tarefas como a locomoção e a audição. Isso está transformando a ciência e a tecnologia.

Por Heitor Shimizu e Ana Paula Baltazar

Em junho, um novo campeão conquistou importante marca no mundo dos bits. Surgiu o supercomputador mais veloz do planeta, o Roadrunner – nome do pássaro, incansavelmente perseguido por um coiote, que inspirou o desenho animado Papa-Léguas. Ele quebrou um recorde espetacular. Atingiu a velocidade de processamento de dados chamada de petaflops, que corresponde a 1 quatrilhão de operações por segundo.

Ao alcançarem a barreira dos petaflops, as máquinas qualificam-se para simular operações e resolver problemas extremamente complexos, com profundas implicações tanto para a ciência como para o mundo dos negócios. Com todo esse poder de fogo, os computadores conseguem, por exemplo, reproduzir algumas funções do cérebro. E isso já está ocorrendo.

BERÇÁRIO DE GALÁXIAS - Durante um mês, o principal supercomputador da Sociedade Max Planck, na Alemanha, realizou os cálculos que criaram esta imagem. É a simulação do surgimento de um grupo de galáxias. O cubo à esquerda mostra uma nuvem homogênea que começa a se contrair. Aos poucos, a matéria escura (que constitui 25% do universo, mas é invisível) se aglutina para dar origem a uma estrela, indicada por um pequeno ponto amarelo no cubo à direita. Os cientistas conseguiram recriar a história evolutiva de 20 milhões de galáxias.

O maior supercomputador do Brasil é o Netuno, inaugurado em maio pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ocupa o 138º lugar na lista dos Top500. Alcança 16,24 teraflops. Tem menos de 2% da velocidade do Roadrunner. Mas isso não é pouco. Uma previsão de chuvas para dez dias é feita em uma hora na UFRJ. Se fosse usado um PC comum, levaria quarenta dias. Ou seja, a chuva já teria caído. Financiado pela Petrobras, o Netuno custou 5 milhões de reais. Será empregado na exploração de petróleo. Nesse setor, a força do processamento de dados auxilia na descoberta de novas reservas, quer por meio de cálculos, quer pelo conhecimento adquirido sobre o comportamento do leito oceânico. "Com o Netuno podemos prever também como o solo vai se comportar após a retirada do petróleo e do gás, além de estimar quanto isso pode alterar o regime de correntes e as temperaturas do mar", disse a VEJA Sergio Guedes de Souza, coordenador do Centro de Computação de Alto Desempenho de Geofísica e Oceanografia da UFRJ.

Educação é dinheiro

Especialista em combater com números os mitos sobrea sala de aula, o economista americano mostra como o bom ensino pode ser decisivo para o crescimento econômico.

Por Camila Pereira

Poucos estudiosos se dedicam a compreender a educação com uma visão tão científica quanto a do americano Eric Hanushek. Professor da Universidade Stanford e doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, é dele a mais extensa pesquisa já feita sobre os efeitos de um bom ensino no crescimento econômico. Nos últimos trinta anos, Hanushek vem travando embates com ideólogos da educação e os sindicatos de professores. É figura controversa, entre outras coisas, por ter sido o primeiro a afirmar que aumento de salário não influencia a qualidade do ensino – a não ser quando obedece a uma política de premiação aos melhores em sala de aula.

Espectativas com acelerador de partículas

Um brinde ao Big Bang com o funcionamento a supermáquina feita para desvendar os segredos do universo.



Energia que vira massa - cientistas observam nas telas os primeiros testes do acelerador de partículas LHC: prótons quase à velocidade da luz.

Quadro: Os tempos do LHC

Os cientistas do laboratório de física Cern, na Suíça, ergueram copos de plástico para um brinde e celebraram ruidosamente uma grande vitória. Momentos antes, havia ocorrido a primeira demonstração da maior máquina já construída em todos os tempos, destinada a conduzir o mais ousado experimento da história da física. Trata-se do acelerador de partículas LHC (sigla em inglês para Large Hadron Collider), com o qual se pretende desvendar os mistérios do nascimento do universo e responder a questões cruciais da cosmologia, como a possível existência de outras dimensões. O LHC é um túnel de 27 quilômetros de extensão, construído a 100 metros de profundidade na fronteira entre a França e a Suíça. Em seu interior, os cientistas aceleram feixes de prótons a uma velocidade próxima à da luz e os fazem colidir. Com isso, pretende-se reproduzir as condições existentes no cosmo um trilionésimo de segundo depois do Big Bang, a grande expansão súbita que deu origem ao universo e a tudo o que ele abriga.

Entre o projeto e a construção, o LHC levou 24 anos para se materializar, ao custo de 8 bilhões de dólares bancados por um consórcio de países. Na quarta-feira, durante a demonstração da supermáquina, os cientistas fizeram um feixe de prótons viajar por toda a extensão do acelerador. Ainda deve demorar dois meses para que o LHC funcione de verdade, promovendo a colisão de prótons, mas ele já passou com brilho no primeiro teste. "Considerando os milhares de mecanismos e sistemas da máquina, que poderiam fazer com que algo desse errado, a estréia foi um sucesso", diz o físico Gustavo Burdman, da Universidade de São Paulo.


Boa gestão da educação no DF

Os alunos das escolas públicas do Distrito Federal agora aprendem ciências na prática – e adoram a disciplina.

Por Camila Pereira

Os animados estudantes na foto acima são raridade no Brasil. Aos 8 anos, perguntados sobre o que mais os diverte na escola, não hesitam: "Ciências, ciências!". Num país em que tantos alunos repudiam as disciplinas exatas, o apreço dessas crianças pela matéria surpreende. Chama ainda mais atenção saber que tanta euforia se deve a algo tão simples: um armário repleto de tubos de ensaio e reagentes químicos, novidade na sala de aula. Na ausência de um laboratório, é lá que fica guardado o material para os experimentos. O projeto propicia algo inédito na vida dessas crianças. Pela primeira vez, elas, que estudam em escola pública, recebem aulas práticas de ciências até melhores do que as de bons colégios particulares. Algumas ouviram falar da matéria só agora. Na semana passada, os alunos da Escola Classe 41, encravada numa região pobre do Distrito Federal, eram apresentados ao conceito de densidade dos líquidos por meio da observação de detergente, mel e água em tubos de ensaio. Esculpiam ainda órgãos do corpo humano com massinha de modelar. Os mais velhos descobriam a diversidade das plantas no microscópio. O projeto, concebido por uma empresa inglesa especializada em educação, já foi implantado em escolas públicas de Salvador e Belo Horizonte e, em breve, chegará a países como a Argentina. A diferença, no caso de Brasília, é a extensão: todos os 311 000 alunos do ensino fundamental foram incluídos.

Jung Yeon/AFP

No topo do ranking - ao contrário do que ocorre no Brasil, na Coréia do Sul laboratórios na escola são a regra.

Em nenhum outro lugar do país se importam hoje tantas idéias para a educação quanto no Distrito Federal. Elas despertam atenção por ser aplicadas ao mesmo tempo numa única rede de escolas. Além das aulas práticas de ciências, uma mudança crucial no sistema de escolha dos diretores pode pesar em favor do ensino. Eles passaram a ser selecionados por eleição direta – não mais por indicação política. Só podem entrar na disputa aqueles com boas notas numa prova oficial. Caso de Oldair José de Souza, diretor recém-empossado: "Nunca tive contatos no governo. Por indicação, jamais chegaria a diretor". Na posse, ele e os outros assinaram um contrato com a secretaria em que se comprometem a cumprir metas acadêmicas. Caso fracassem, ficam impedidos de se reeleger – bem-sucedidos, recebem como prêmio um bônus no salário, benefício estendido ao restante da equipe. Outro fator decisivo para o avanço na sala de aula diz respeito à jornada escolar. Como em países de ótimo ensino, o Distrito Federal resolveu implantar turno integral em todas as escolas públicas até 2010. Não é exatamente barato. Neste ano, os gastos com educação subiram 645 milhões de reais, em torno de 20%. A experiência mostra, no entanto, que as medidas vão ao ponto certo. "Investir em meritocracia e em mais aulas provou ser uma fórmula bastante eficiente", diz o especialista Claudio de Moura Castro.

Entendendo melhor o Jogo da Bolsa

Quem ganha sabe a hora de jogar

PREGÃO DA BOLSA - A perda ou o ganho estão no fim da curva.

Para muitos brasileiros, a bolsa de valores ainda é uma festa à qual a maioria só é convidada para pagar a conta e limpar o salão. Foi assim na primeira grande euforia no começo dos anos 70, quando as bolsas pareciam distribuir as riquezas do milagre econômico, mas serviram mesmo para socializar as perdas. Não é mais assim. Investir em ações no Brasil oferece hoje os mesmos riscos e prêmios dos grandes mercados de papel dos países avançados. Lá, como aqui, investir em ações exige conhecimento, habilidades de jogador e disposição para enfrentar riscos.

A HORA DE ENTRAR

Os dirigentes das bolsas gostam de lamentar o fato de seu negócio ser o único que afasta os clientes nos momentos de grandes liquidações – ou seja, quando as ações estão baratas. É uma meia verdade. O cliente só foge quando acha que as ações em liquidação tendem a valer ainda menos. Mas o ponto de entrada é decisivo para definir ganho ou perda com ações. No caso do índice Bovespa:

• Quem entrou na bolsa no pico da valorização, ocorrido em maio de 2007, estava perdendo 29% do investimento na sexta-feira passada.

• Quem comprou papéis em setembro de 2007, ou seja, há um ano, perdia apenas 3% na semana passada.

• Quem entrou na Bovespa há dois anos, em setembro de 2006, ainda ganhava 45% na semana passada.

A HORA DE SAIR

Seja um veterano ou um novato, um gênio das finanças ou um analfabeto financeiro, a única maneira de ganhar nas bolsas é vender as ações por um preço maior do que aquele pago por elas.

• Quem tem sangue-frio e confia que o pico de valorização ainda não chegou segura as ações e pode lucrar mais. Se avaliar erradamente, venderá na curva descendente e ganhará menos.

• Os maiores ganhadores são aqueles que estabelecem para si mesmos gatilhos de compra e venda e obedecem fielmente às suas diretrizes. Por exemplo: um investidor da Bovespa que decida vender sempre que o índice passar de 53 000 pontos e comprar sempre que o índice baixar a 45 000 pontos poderá não fazer fortuna instantânea, mas terá menos probabilidade de perder grandes somas.

Sobre o Acelerador de Partículas

Sion Touhig/Getty Images

"Apostei 100 dólares como não vamos achar o Higgs."

Stephen Hawking, cientista inglês, torcendo para que o gigantesco acelerador de partículas LHC não consiga encontrar o bóson de Higgs, a partícula que resolveria o enigma do surgimento do universo.

Um pouco sobre as próximas eleições



Por Roberto Pompeu de Toledo

"O sistema brasileiro de eleição proporcional situa-se bem acima da capacidade média do sistema operacional do cérebro humano".

E lá vamos nós, outra vez. Não deve haver muitos países no mundo em que o eleitor é convidado a pinçar numa lista de extensão oceânica um candidato do qual, se não é seu parente, teve apenas escassas referências, e designá-lo para exercer uma função que sabe de antemão caracterizar-se, na melhor das hipóteses, pela inocuidade, e, na pior, por oferecer posição vantajosa para a prática de ilícitos. É o que estamos convidados a fazer – aliás, intimados, já que o voto é obrigatório – na eleição para vereador. Em quem devo votar? Você tem alguma indicação? Na véspera da eleição, estabelece-se uma aflita corrente em que se faz a ronda dos conhecidos. Quem sabe dessas consultas se consiga extrair o nome de um candidato capaz, ou pelo menos não incurso em algum artigo do Código Penal. Não deve haver muitos países em que o eleitor é induzido a votar às cegas. É o caso do Brasil, campeão da esbórnia partidário-eleitoral, nas eleições para vereador, deputado federal e deputado estadual.

A esbórnia começa na quantidade de partidos com existência legal no país: 27. Vinte e sete! Do amontoado obeso e incongruente de partidos derramaram-se neste ano, pelos 5 563 municípios brasileiros, 348 047 candidatos a vereador (348 047!) – 1 224 no Rio de Janeiro (1 224!), 1 077 em São Paulo (1 077!), 1 030 em Belo Horizonte (1 030!). Haja ponto de exclamação para dar conta da magnitude dos números! E haja paciência e discernimento do eleitor para encontrar, nesse palheiro, a agulha salvadora do candidato mais de acordo com seu gosto. Da superlotação das listas partidárias resulta esse desafio para o olho e a atenção que é o entra-e-sai dos candidatos no horário eleitoral. Acresce que os partidos não ajudam, ao peneirar seus representantes, e então, a cada ano, temos o conhecido desfile de rostos que parecem herdados do portfólio do selecionador de elenco do saudoso Federico Fellini, ou do PowerPoint do doutor Cesare Lombroso.

E assim chegamos a uma primeira e crucial conclusão: o sistema brasileiro de eleição proporcional situa-se bem acima da capacidade média do sistema operacional do cérebro humano. A segunda conclusão é que não se pode encarar a sério um sistema que não se compreende; se os parlamentos são o que são, no Brasil, em grande parte é pelo modo como são eleitos. A terceira conclusão não é conclusão, é um apelo: que se invente outro modelo. É a sobrevivência do regime representativo que está em jogo.

Espiritismo no cinema

Bezerra de Menezes, filme sobre o pioneiro do kardecismo no Brasil, surpreende nas bilheterias. A produção é tosca, mas põe em foco um personagem histórico curioso.

Por Marcelo Marthe

FENÔMENO SOBRENATURAL -Bezerra de Menezes (à dir) e Vereza, que o interpreta no filme: a presença do "espírito de luz" foi sentida no set de filmagem.

Trailer

Médico e político de projeção nos tempos do Império, o cearense Adolfo Bezerra de Menezes morreu em 1900, aos 68 anos. Mas consta que continua a dar notícias com freqüência. Pioneiro na divulgação da doutrina kardecista no país, ele virou, depois da morte, um dos "espíritos de luz" mais recorrentes em sessões mediúnicas. Meses atrás, o fantasma teria baixado no set de filmagem de sua recém-lançada cinebiografia, Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito. "Senti uma energia muito positiva", declarou o ator que faz seu papel, o veterano Carlos Vereza, a uma revista dirigida aos adeptos do espiritismo – acrescentando que alguém teria visto o vulto do personagem a seu lado numa cena. Com ajuda sobrenatural ou não, o fato é que a fita se tornou um fenômeno de público nos cinemas. Até a última quarta-feira, quando ainda não tinha completado três semanas em cartaz, Bezerra de Menezes contabilizava mais de 200 000 espectadores. Dirigido pelos desconhecidos Glauber Filho e Joe Pimentel, sob encomenda de uma entidade espírita cearense, o filme é uma produção histórica mambembe. Embora tenha só 75 minutos, parece durar a eternidade. Ainda assim, deixou para trás lançamentos nacionais como Os Desafinados, que traz famosos como Rodrigo Santoro no elenco e teve 120 000 espectadores desde a estréia, na mesma data. Nessa toada, opina o cineasta Paulo Sérgio Almeida, do site Filme B, que monitora as salas de exibição do país, não será surpresa se ultrapassar a marca dos 500 000 espectadores e ficar entre os três filmes brasileiros de maior bilheteria neste ano.

Nem toda a comunidade espírita ficou satisfeita com o filme. "Para quem conhece em profundidade esse espírito iluminado que foi o doutor Bezerra de Menezes, a reconstituição de sua vida deixou a desejar", diz Marta Antunes Moura, diretora da Federação Espírita Brasileira. Compreende-se. Com orçamento de quase 3 milhões de reais (um quarto do qual obtido por meio de leis de incentivo), a produção tem imagens embaçadas, roteiro tosco e interpretações que são um assombro. Os atores são em sua maioria desconhecidos. Mas há gente da TV, a exemplo do comediante Lúcio Mauro e do galãzinho Caio Blat, que faz uma ponta constrangedora como um militar com bigodão postiço. A participação de Carlos Vereza não se resume ao papel de Menezes na velhice – ele também narra a história, num tom monótono. A crença no espiritismo fez com que o ator não titubeasse em aceitar o papel. A conversão de Vereza se deu há dezoito anos, depois que ele sofreu um acidente na gravação de uma série da Globo. "O barulho de um disparo me fez perder parte da audição. Como não conseguia trabalhar, caí em depressão", conta. E completa: "Só me curei depois de passar por operações espirituais". Bezerra de Menezes é um personagem histórico interessante. Oriundo de uma família nordestina abastada, ele conquistou renome como médico no Rio de Janeiro de dom Pedro II. Abolicionista, foi um deputado influente em seu tempo. Arriscou a reputação, contudo, ao tornar pública a adesão ao espiritismo – cuja prática, àquela altura, era considerada crime. "Com seus artigos em defesa da causa na imprensa e sua opção pela caridade, ele lançou as bases para o crescimento da religião no país", diz o antropólogo Emerson Giumbelli. Os admiradores chamam Bezerra de "Kardec brasileiro" – referência ao francês que fundou a crença. Para os espíritas, ele foi a reencarnação de um espírito evoluído dos tempos bíblicos. Há quem jure que, numa sessão mediúnica nos anos 60, o fantasma do escritor russo Leon Tolstoi tenha revelado que em outra vida Bezerra foi Zaqueu, cobrador de impostos que se tornou seguidor de Jesus, conforme o Evangelho de São Lucas. Para outros, ele teria sido o próprio Lucas.

Horário eleitoral

Uma comédia com Kevin Costner põe em questão um dos pilares da democracia: o voto.

Por Marcelo Marthe


PAI E FILHA Bud (Costner) e Molly (Madeline Carroll): impasse como o de Bush versus Gore, em 2000

Exclusivo on-line - Trailer

Numa cena de Promessas de um Cara de Pau (Swing Vote, Estados Unidos, 2008), o protagonista Bud Johnson (Kevin Costner) faz muxoxo quando sua filha Molly (Madeline Carroll) lhe ensina que o voto é um "dever cívico". Bud é um vagabundo que só tem olhos para as latas de cerveja. Se não está nem aí para o trabalho ou para a educação da filha, que dizer da eleição para presidente dos Estados Unidos? Ele não sabe nem o nome dos candidatos. Imagine se levaria em conta o pedido da garota para que vote? Enquanto o pai está desmaiado de porre, é a própria menina quem entra numa seção eleitoral, surrupia uma cédula e exerce a escolha em nome dele. Mas, por um capricho do destino – uma queda de energia na hora da votação –, o voto de Molly não é computado. Surge uma situação insólita: a disputa entre os fictícios candidatos republicano e democrata termina empatada. Caberá então àquele minúsculo condado do Novo México decidir quem será o próximo presidente americano. Mais ainda, a solução está nas mãos do único eleitor que, supostamente, ficou frustrado em seu direito de votar: Bud, o traste.

Machado - um verdadeiro imortal

No centenário de sua morte, o autor de Dom Casmurro continua instigando críticos, historiadores, leitores. O mulato de origem humilde que nunca freqüentou uma universidade e quase nunca saiu do Rio de Janeiro é o mais universal dos escritores brasileiros.

Por Jerônimo Teixeira



O GÊNIO TARDIO - O jovem Machado de Assis: farrista, ele gostava do teatro e da boemia, mas também lutava para subir socialmente e tinha plena consciência de sua superioridade intelectual.


Entrevista: Gregory Rabassa
Artigo: Nelson Ascher
Galeria de fotos

Participação nota 10

Escolas brasileiras começam a criar bons programas para atrair os pais. Com eles por perto, o desempenho melhora.

Por Camila Pereira


Com a participação ativa dos pais na vida escolar, a nota dos alunos é cerca de 20% maior.

A internet, que até há pouco tempo ficava restrita às raras aulas de computação, começa a se prestar ao propósito de despertar a atenção dos pais para o que se passa na sala de aula de escolas brasileiras. Os colégios na vanguarda desse processo colocam na rede o boletim dos alunos, a lição de casa e um roteiro diário das aulas. Os pais podem ainda trocar e-mails com os professores, para que se mantenham atualizados sobre os filhos sem necessidade de ir à escola. Vem sendo um estímulo para gente como o casal de advogados Paulo e Maria Amélia Meneguetti. Para eles, absorvidos por uma jornada de trabalho puxada, era difícil encontrar tempo para acompanhar a rotina dos filhos, Bianca, 10 anos, e Caio, 14. O fato de a Escola Internacional de Alphaville, em São Paulo, ter aderido à internet proporcionou-lhes algo raro, segundo o pai: "Entre uma reunião e outra, consigo acompanhar pelo computador o que eles estão aprendendo. Agora, posso ajudar mais". Novidade no Brasil, a internet tem tido uso semelhante, há pelo menos uma década, em países onde a família participa ativamente da vida escolar, como Coréia do Sul e Japão. Também por isso os resultados dos estudantes lá são tão satisfatórios. Afinal, nenhum outro fator, além da qualidade dos professores, está tão associado ao bom desempenho das crianças quanto o envolvimento dos pais. Uma nova pesquisa, conduzida pelo economista Naercio Menezes, do Ibmec, deu os números. Quando os pais estão em cena, as notas podem melhorar até 20%.

A crise, a esquerda e o neoliberalismo

Por Maílson da Nóbrega

"Quem conhece a história e o papel fundamental do crédito não titubeia em enfrentar os riscos de crises bancárias, como fizeram agora as autoridades americanas".

Ao saber que o Tesouro dos EUA havia estatizado a Fannie Mae e a Freddie Mac, a esquerda brasileira delirou: a medida teria decretado o fim do neoliberalismo e o fracasso da ortodoxia financeira. Os americanos teriam feito o que nos diziam para não fazer. Países ricos nunca foram neoliberais. E outras bobagens.

A evolução, com a bênção do papa

Discurso criacionista faz a Santa Sé e a Igreja Anglicana defenderem Charles Darwin.

Por Thomaz Favaro


METÁFORA CRISTÃ -
Afresco de Michelangelo, no teto da Capela Sistina, é uma representação simbólica da criação de Adão.


O reverendo anglicano Michael Reiss cometeu uma heresia. Em discurso na Inglaterra, há duas semanas, ele sugeriu que a teoria da evolução, de Charles Darwin, deveria ceder ao criacionismo parte de seu espaço no currículo escolar básico. O que se seguiu ao pronunciamento foi uma tempestade pública que só amainou com a demissão sumária de Reiss do cargo de diretor de educação da Royal Society, a mais prestigiada sociedade científica da Inglaterra. O episódio deu a oportunidade para duas das mais importantes confissões cristãs reiterarem seu apoio à teoria da evolução de Darwin. O primeiro veio da Igreja Anglicana, na qual o naturalista inglês foi batizado, que pediu perdão pela posição contrária de alguns de seus clérigos – mas não da instituição, que jamais o condenou – em relação a suas idéias: "Duzentos anos após seu nascimento, a Igreja da Inglaterra lhe deve desculpas pelos mal-entendidos". O segundo veio do presidente do Conselho para a Cultura do Vaticano, Gianfranco Ravasi, que reafirmou que não há contradições entre o evolucionismo e as idéias católicas.


A ORIGEM DO HOMEM - Caricatura de Darwin do século XIX: controvérsia no clero

A Igreja Católica jamais condenou formalmente a teoria de Darwin, embora tenha mostrado certa relutância em aceitá-la nas primeiras décadas após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A retomada das descobertas genéticas do monge austríaco Gregor Mendel, no século XX, permitiu à ciência comprovar a teoria evolucionista – até então controversa e puramente abstrata. Em 1950, o papa Pio XII afirmou que não há contradição entre a evolução e a doutrina cristã, posição reforçada por João Paulo II, em 1996. "Os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução pela doutrina católica referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação", disse a VEJA Rafael Martínez, sacerdote espanhol e professor de história da ciência da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. "Hoje sabemos que a sabedoria divina criou o mundo utilizando as forças da natureza."

A aversão atual às idéias de Darwin deve-se a um grupo de religiões, como algumas confissões de batistas, metodistas e pentecostais, que permanece preso à leitura ao pé da letra da origem do universo contida na Bíblia. São os criacionistas, um grupo minoritário, mas bem instalado em algumas regiões dos Estados Unidos. Felizmente, sua influência é diminuta fora do país, exceto por alguns casos pontuais, como o de Michael Reiss. Que assim continue.

Universidades voltadas para o mercado

As universidades particulares já educam a esmagadora maioria dos jovens contratados pelas empresas brasileiras.

Por Marcos Todeschini


Da aula para o emprego - O economista carioca Fábio Fonseca arranjou emprego num banco antes mesmo da formatura: foi um professor da faculdade que o ajudou a chegar lá.

As empresas no Brasil passaram décadas usando um mesmo critério para enxugar as pilhas de currículo acumuladas nos departamentos de recursos humanos: na dúvida entre dois candidatos, ficavam com o que vinha da universidade pública. O quadro começou a mudar nos últimos dez anos, com o aparecimento de centenas de faculdades particulares que despejam milhares de jovens no mercado de trabalho. Uma nova pesquisa mostra em que medida isso teve impacto nas empresas: em 240 das maiores do país, 86% dos funcionários com curso superior saíram de uma instituição privada. Estão distribuídos por todos os escalões. Entre os jovens recém-contratados, os egressos do ensino particular surgem em número ainda maior, o que revela que a tendência só se intensifica: eles são 90% do total. Parte do fenômeno, sobre o qual lançou luz o estudo conduzido pela consultoria Franceschini Análises de Mercado, deve-se à própria expansão acelerada das faculdades particulares. Elas concentram hoje 75% dos universitários. Era esperado, portanto, que também nas empresas houvesse mais deles. O que contribui para a surpreendente predominância das particulares é o fato de oferecerem às empresas formandos com uma visão mais focada nas questões práticas do mercado de trabalho. Resume Sofia Esteves, da Companhia de Talentos, responsável pelo recrutamento de jovens para 160 das grandes empresas no país: "O ensino privado está formando jovens mais prontos para a vida real".

Será o fim do capitalismo?


Por João Rodrigues

Esta pergunta circulou nos últimos dias na imprensa financeira respeitável. Assim colocada, a pergunta não tem grande sentido. Todos conhecemos a correlação das forças sociais e políticas. E todos sabemos que uma transição sistémica desejável deverá ser o resultado de um longo processo de acumulação de forças democráticas e de vitórias socialistas no campo das ideias e das políticas públicas.

Na hora de escolher a melhor escola

Stockbyte/Getty Images/Royalty Free

Especialistas reuniram um conjunto de questões que, feitas durante a visita a uma escola, podem ajudar a esclarecer se ela é de fato boa – ou não. A lista:

Existe um plano de carreira para os professores?
Comentário dos especialistas: o fato de a escola oferecer incentivos, como cursos e premiações por mérito, não é de interesse apenas dos professores. Mais motivados, eles costumam dar aulas melhores – e isso aparece nas pesquisas.

Qual é a carga horária das aulas de língua estrangeira?
Comentário dos especialistas: estudos mostram que o mínimo necessário para garantir que as crianças aprendam uma língua estrangeira são três horas de aula por semana – com menos do que isso, o efeito será muito pequeno

Quais são as metas acadêmicas da escola para os próximos anos?
Comentário dos especialistas: escolas que conseguem explicar com clareza seus objetivos acadêmicos estão no caminho certo. Um plano consistente é sinal de que o colégio identifica seus pontos fracos e sabe o que precisa fazer para avançar.

Como os laboratórios são usados em prol do aprendizado?
Comentário dos especialistas: laboratórios modernos de ciências e computação não significam muito se a escola não tem planejamento nem profissionais preparados para utilizá-los em favor do bom ensino. A ausência de resposta para tal pergunta é um mau sinal.

Há leitura obrigatória de livros não didáticos?
Comentário dos especialistas: colégios que indicam uma lista de livros costumam se sair melhor em todas as disciplinas. Mas atenção: bons resultados pertencem àquele grupo de escolas que discutem as obras na sala de aula e pedem aos estudantes que realizem trabalhos relacionados a elas.

As melhores universidades do mundo

No topo, Harvard é a primeira colocada em todos os rankings.

Uma comparação entre os três mais relevantes rankings internacionais do ensino superior:

The Times (www.topuniversities.com)
O único que considera a opinião do mercado de trabalho sobre a universidade – critério que responde por 10% da nota final. Também é o ranking que dá maior peso à avaliação da instituição feita pelos próprios acadêmicos.

Universidade de Shangai Jiao Tong (www.arwu.org)
É o que mais valoriza critérios objetivos de produtividade científica. Inclui na avaliação o número de alunos e professores com prêmios Nobel e o de pesquisadores que aparecem entre os mais citados em suas áreas.

US News (www.usnews.com)
Avalia apenas universidades americanas. É o mais detalhado dos três, uma vez que não só dá a classificação das instituições como também produz listas específicas sobre as melhores escolas para cada curso.

Especialistas consultados: Claudio de Moura Castro, Gustavo Ioschpe, Maria Inês Fini e Silvia Colello.

Brasil já paga a conta da crise financeira internacional

Por Vicente Nunes



Terremoto financeiro internacional chega ao país e restringe o crédito, eleva os juros dos empréstimos, faz o Banco Central queimar reservas e derrete o valor de mercado das empresas com ações na Bovespa.

O Google quer engolir o iPhone

Na semana em que o celular da Apple chega ao Brasil, o gigante da internet lança no exterior o telefone que pretende superá-lo.

Por Leandro Narloch - Mark Lennihan/AP


Armas da disputa - O G1, com teclado embutido (acima): aposta num futuro em que mais gente vai se conectar à internet pelo celular. Abaixo, anúncio do iPhone em shopping de São Paulo.

As mil utilidades do G1

• A grande atração é o sistema operacional Android, feito para rodar também em outros smartphones. Mais que um celular, o G1 é uma máquina portátil de acesso à internet

• O Android é um sistema operacional aberto. Pode ser modificado e personalizado por qualquer programador

• Contatos, compromissos e arquivos não ficam guardados no celular, mas na conta on-line do Google

• O sistema de GPS localiza os contatos que estão on-line e mostra no Google Maps em que parte da cidade cada um deles está. Útil para localizar os filhos – ou o cônjuge

Aplicativos

• A câmera do celular lê códigos de barra de produtos e compara preços na internet

• O Google Maps mostra quais os pontos de táxi mais próximos. Para chamar o táxi, basta clicar no link que aparece no mapa

• O Pocket Journey usa o GPS para reconhecer as atrações turísticas próximas e exibe informações sobre elas

• O Ecorio memoriza os trajetos que o dono do celular realizou durante o dia e calcula quanto de dióxido de carbono (CO2), o principal gás do efeito estufa, foi emitido nos deslocamentos

Pão de queijo e quatro horas de sono


Balanço de uma maratona quedurou três dias: plantão em seis lojas, 500 quilômetros rodados de carro, mais de 150 fotos com admiradores e incontáveis pães de queijo. "Não tinha tempo para almoçar. Também ando dormindo menos de quatro horas por noite", diz LUIZA HELENA TRAJANO, 58 anos, dona da rede de lojas que na semana passada chegou a São Paulo e entorno com nada menos que 44 endereços inaugurados na mesma segunda-feira. Dá para descansar no fim de semana? "Eu tenho de ir às lojas. É na ponta que tudo acontece", responde, com a alegria nada disfarçada dos loucos por trabalho.

Pequenos Shivas

Excesso de energia, hiperatividade, transtorno do déficit de atenção... Você já pensou em colocar seu filho para fazer aulas de ioga?

Por Anna Paula Buchalla

EM POSIÇÃO DE LÓTUS A professora Maria Ester e seus iogues: no currículo de uma escola de ensino fundamental.

Depois de uma tarde cheia de atividades escolares, um grupo de onze crianças, entre 8 e 10 anos, senta-se em seus colchonetes, em posição de lótus (veja na foto). "Vamos todos relaxar e respirar com calma. Tentem prestar atenção ao som da sua respiração", orienta a professora Maria Ester Azevedo Massola, num tom de voz baixo e suave, que praticamente inexiste no universo infantil. Executado o exercício de inspirar e expirar profundamente, é hora de os pequenos partirem para a posição da vela: deitados de barriga para cima, eles elevam os quadris e as pernas, apoiados nos braços. Sucedem-se as posições do cachorro, do peixe, do corvo, da aranha e assim por diante. Aulas de ioga integram o currículo do ensino fundamental de um colégio particular de São Paulo, o Hugo Sarmento. Uma vez por semana, os alunos se contorcem nas posições requeridas pela ginástica milenar criada na Índia – bem mais fáceis para elas do que para os adultos. "A ioga trabalha a coordenação, a força e o equilíbrio, inclusive o mental", diz Maria Ester. A sessão termina com relaxamento ao som de música indiana. Algumas crianças bocejam e todas se despedem com um sonoro "namastê".

Pode bater, que o gigante é manso

O presidente do Equador expulsa a Odebrecht do país, seqüestra os bens da empresa e ameaça dar calote no BNDES. E mais uma vez o Brasil apanha sem reclamar.

Por Duda Teixeira



PRESSÃO MILITAR
Soldados vigiam prédio da Odebrecht em Guaiaquil: guerra contra quem?

Quadro: Com amigos como estes..

Os presidentes populistas da América do Sul esbravejam o tempo todo contra os Estados Unidos. Contam-se nos dedos de uma só mão, contudo, as medidas concretas contra interesses americanos adotadas por esses governos. Em lugar disso, quando querem agitar uma causa nacionalista para unir a nação em torno do presidente, o golpe é desferido contra o Brasil. Fazem isso com total desfaçatez, pois a experiência dos últimos anos demonstrou que o vizinho grandalhão engole passivamente as humilhações. Na semana passada, Rafael Correa, presidente do Equador, expulsou a Odebrecht, seqüestrou os bens da construtora, ocupou com tropas quatro de suas obras e proibiu quatro diretores de deixar o país. Dois deles escaparam a tempo de volta para o Brasil. Os outros dois buscaram refúgio às pressas na casa do embaixador brasileiro em Quito. Os engenheiros brasileiros que permanecem nas obras passaram a ser escoltados e dormem em quartos de hotel com soldados vigiando no corredor. Por fim, Correa ameaçou não pagar um empréstimo de 243 milhões de dólares concedido pelo BNDES. Mediante tal flagrante desrespeito às regras internacionais e aos direitos humanos, a diplomacia brasileira tratou mais uma vez de defender os direitos nacionais... dos equatorianos. "Houve, digamos, ações preventivas por parte do Equador. Não houve conflito", desconversou o chanceler Celso Amorim.