Procura-se um estadista

Na hora em que os EUA enfrentam uma das piores turbulências da história, Bush, o "pato manco", sofre com sua falta de liderança política – e, para piorar, ninguém parece pronto paraassumir seu lugar.

Por André Petry, de Nova York

Fotos Getty Images, Pablo Martinez/AP

A CRISE SUMIU DO DISCURSO - O presidente Bush e os operadores da Bolsa de Nova York: a crise é forte, mas, ao falar na ONU, ele mal tocou no assunto.

A crise é a maior desde a desgraça dos anos 30 do século passado. O pacote é o maior socorro financeiro da história do capitalismo. E tudo o que o líder da maior potência do planeta tem a dizer ao mundo é que tomou "medidas ousadas", cujo objetivo é conter a crise mas nem de longe tocam na sua raiz? Lula, que não é governante de país "no centro da crise", aproveitou a brecha para tirar uma casquinha. "Eu lamentei. Imaginei que o presidente Bush falaria um pouco da crise econômica, do que o governo americano pretende fazer", disse, numa entrevista posterior. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, que discursou logo depois de Lula e Bush, tirou uma casquinha da própria tribuna da ONU. Em seu pronunciamento, Sarkozy gesticulou feito um italiano, disse que o sistema financeiro era "insano" e propôs uma cúpula mundial em novembro para discutir a regulação internacional dos mercados financeiros. A idéia é boa, mas todo mundo sabe que, em pleno terremoto econômico, há medidas mais urgentes a tomar do que ouvir longas diatribes políticas em cimeiras mundiais.

A AUSÊNCIA DE UM LÍDER - Bush, em reunião na Casa Branca com líderes partidários e os candidatos McCain e Obama: um desastre.

A PRESENÇA DE UM LÍDER - Roosevelt: na crise, ele salvou o país, venceu a guerra e criou a maior democracia industrial.

O problema da falta de liderança política é particularmente grave num momento em que o estado começa a assumir outro papel, com uma presença muito mais expressiva na economia. Na explosão da crise, o governo americano encampou duas gigantes do financiamento imobiliário, Fannie Mae e Freddie Mac, depois desembolsou 85 bilhões de dólares para salvar a maior seguradora do mundo, a AIG, e agora quer injetar 700 bilhões de dólares no sistema financeiro – e ninguém sabe se a intervenção do governo vai parar por aí. É uma presença estatal enorme, e justamente numa economia marcadamente livre como a americana. Seria desejável que, sob o comando disso tudo, houvesse um estadista. Infelizmente, não há nem um presidente. E, para piorar, ninguém parece pronto para assumir o papel.