Henry e Ben no escuro

O mundo sonha para que da Pearl Harbor financeira no coração do capitalismo nasça uma economia menos sujeita a terremotos e bolhas especulativas. Por enquanto, é apenas um sonho, e só se saberá se isso é possível quando a crise superar sua atual fase aguda, a do pesadelo.

Por Marcio Aith, de Washington

Kevin Lamarque/Reuters

Mentes brilhantes - Henry Paulson, secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente do Fed: plano de 700 bilhões de dólares para estancar a crise.

Quadro: Para diminuir a alavancagem

A notícia do ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor, no dia 7 de dezembro de 1941, encheu de alegria o líder inglês Winston Churchill, que combatia quase sozinho a máquina de guerra nazista na II Guerra Mundial: "Naquela noite, dormi o sono dos salvos e agradecidos". Churchill sabia que a traição japonesa arrastaria os Estados Unidos para a guerra, tornando a derrota alemã inevitável. Depois da crise de Wall Street, que não sem razão foi comparada a Pearl Harbor, o mundo sonha em ir dormir com a mesma certeza de que do evento cataclismático no centro financeiro do capitalismo brotará uma vitória contra as bolhas especulativas que de tempos em tempos fazem terra arrasada da economia. Por enquanto, isso é apenas um sonho. A crise ainda está em sua fase de pesadelo. A semana acabou sem que o Congresso americano se colocasse de acordo com os termos do bilionário plano de salvação orquestrado pelas autoridades monetárias dos Estados Unidos, Henry Paulson, secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central. Não houve acordo pelas dúvidas quanto à adequação, à eficácia do plano e, claro, pelo gigantismo do pacote – 700 bilhões de dólares, ou 2 300 dólares para cada homem, mulher e criança dos Estados Unidos.

O POVO CONTRA WALL STREET - Manifestantes no centro financeiro do capitalismo americano, diante da Bolsa de Nova York: protesto contra o pacote de salvamento aos bancos.

"Esta crise é diferente de todas as outras. Ela surgiu no coração do capitalismo", diz, em uma entrevista exclusiva a VEJA, Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI. Quando Roma arde, todo o império fica em suspense. Por essa razão, pelas movimentações tectônicas que varrem do mapa do dia para a noite instituições centenárias, como foi o caso da Lehman Brothers, espera-se que o sofrimento não seja em vão. Mais de 4 trilhões de dólares já evaporaram das bolsas de valores em todo o mundo, mexendo com o bolso e com as convicções de centenas de milhões de poupadores nos cinco continentes. Os ânimos estão acirrados. As opiniões tentam superar em histeria os ruídos da própria crise. Ninguém o fez com tanta ênfase quanto Nicolas Sarkozy, presidente da França: "A idéia de um mercado todo-poderoso operando sem regras e sem nenhuma intervenção política é uma loucura. Os tempos de auto-regulação do mercado, do laissez-faire, chegaram ao fim. Acabou o mercado que está sempre certo". Novas regras para as transações financeiras são certas. Elas virão atreladas ao pacote de salvação de Washington. Disso ninguém duvida. Mas que ordem financeira emergirá depois que o pêndulo voltar a sua posição de descanso e a crise tiver saído da fase do pesadelo? Alguns dos mais estridentes comentaristas do momento atual, como o megainvestidor George Soros, vão se sentir um pouco constrangidos de ter enxergado nos extraordinários eventos de Wall Street os contornos revolucionários. Gary Becker, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1992, resumiu bem a questão na semana passada: "A crise final que vai matar o capitalismo tem sido vista em toda recessão profunda ou desarranjo financeiro grave desde que Karl Marx profetizou o colapso do sistema. Desta vez não seria exceção".

Que mudanças podem ser esperadas? A primeira e mais imediata é a redução do tamanho do mundo financeiro como proporção da chamada "economia real". No auge de 2003, os serviços financeiros representavam 40% de todos os lucros corporativos americanos. Essa proporção já caiu para 20% no ano passado. Em 2008, deverá ficar abaixo de 10% com o tombo de instituições tradicionais como Lehman Brothers, Bear Stearns e Merrill Lynch. Não se trata apenas do resultado da quebra de bancos, mas, principalmente, de um processo de "limpeza" de seus balanços.

Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do FMI, reconheceu em entrevista ao repórter Kalleo Coura que a regulação dos mercados voltou ao ponto zero e hoje é insuficiente para dar conta de uma indústria que se transformou radicalmente nos últimos trinta anos. Rogoff acredita que o primeiro e mais importante passo é conter os lobistas econômicos que hoje dominam Washington: "Quaisquer que sejam as medidas econômicas adotadas, elas não terão efeito se a questão política do poder dos lobistas não for atacada". O professor é contra a simples injeção de dinheiro no sistema sem que os culpados pela crise paguem caro por sua irresponsabilidade. Diz ele: "Wall Street precisa ter a chance de curar a si mesma, os líderes das grandes empresas financeiras mal gerenciadas têm de perder seu cargo, investidores que ignoraram riscos têm de perder dinheiro. O sistema, enfim, tem de vergar sob o peso dos erros que cometeu". O maior desafio, segundo Rogoff, é como fazer isso sem piorar ainda mais a liquidez financeira, o crédito, que é o sangue a manter vivo qualquer sistema financeiro. A sugestão dele é que os Estados Unidos adotem a mesma estratégia da Suécia, quando aquele país se viu diante de uma crise de insolvência semelhante nos anos 90. Explica Rogoff: "A Suécia simplesmente encampou as empresas financeiras falidas, restabeleceu seu patrimônio e reestruturou o sistema financeiro. Tudo muito rápido e muito doloroso, mas em um ano ou dois o país estava de novo crescendo com solidez". E o exemplo a evitar? "O do Japão", diz Rogoff, "que se recusou a reestruturar o sistema financeiro, evitou a falência das empresas e, por causa disso, ainda sofre os efeitos da crise ocorrida quinze anos atrás."

SALVA-VIDAS PARA OS MERCADOS

O plano para eliminar os papéis tóxicos e restabelecer a confiança no sistema financeiro

Proposta - Compra, pelo Tesouro americano, de títulos hipotecários de alto risco e de outros papéis podres que contaminam a contabilidade de bancos e corretoras

Objetivo - Sanear o sistema financeiro, recuperar a confiança entre os bancos e evitar o estiolamento das linhas de crédito para o consumo e investimentos

Richard Drew/AP

EXPECTATIVA
Mercado à espera da salvação

Críticas
• A versão original do plano dá superpoderes ao secretário do Tesouro, que teria carta branca para agir como bem entendesse
• O plano socializa a perda de banqueiros incautos
• O socorro aprofundará o déficit público

Duração prevista
2 anos

Custo inicial
700 bilhões de dólares

Custo total estimado
1,4 trilhão de dólares